Como Doctor Who vem aumentando a representatividade LGBTQI+ e se tornando a série mais inclusiva do gênero.

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Em 1963 quando Doctor Who começou, o relacionamento entre dois homens era considerado ilegal na Inglaterra e em Gales, então mesmo com a representatividade que nós sabíamos que existia atrás das câmeras, com pessoas de sexualidades diferentes trabalhando na série, passar isso para o público era difícil, para não se falar impossível. E essa dificuldade continuou por pelo menos mais 20 anos.

Quando entrevistado para um episódio do The Fan Show sobre a comunidade LGBTQI+ em Doctor Who, Waris Hussein que dirigiu o primeiro episódio da série em 1963, An Unearthly Child, e que é abertamente gay, disse que do jeito que foi concebida e sendo um programa para crianças da década de 60, nunca passou pela sua cabeça associar a série a qualquer tópico LGBTQI+. A única conexão que ele conseguiu fazer quando perguntado, foi o personagem Tegana de Marco Polo, que poderia “ser uma figura fantasiosa em potencial para a comunidade LGBTQ+”.

Claro que com o passar dos anos, outras histórias da série clássica de Doctor Who, emergiram com possíveis conteúdos LGBTQI+. Em entrevista para o DVD de The Curse of Fenric, o escritor Ian Briggs disse que a história por trás do Dr. Judson, foi baseada na vida de Alan Turing, que teve dificuldades em aceitar sua homossexualidade, mas que o episódio sofreu cortes por não ser considerado um tópico a ser abordado em um programa familiar. Ele então mudou a história do Dr. Judson e a frustração em não poder expressar sua sexualidade foi mostrada como a frustração em ter uma deficiência.

Rona Munro, que roteirizou Survival, contou que havia sim um sutil contexto lésbico entre a Ace e a Karra. O que aumenta ainda mais as possibilidades de a Ace ser a primeira Companion LGBTQI+ a ser mostrada na tv.

Em 1989 Doctor Who foi tirado do ar perdendo assim o início da terceira onda do movimento LGBTQI+ e perdendo também a chance de dar palco e mostrar representatividade na série naquele momento histórico. Em 1996, quase uma década antes da série nova de Doctor Who, Russell T Davies deu foco ao público gay com o Companion Chris Cwej em Damaged Goods. O Companion teve sua bissexualidade reforçada em Bad Therapy e The Room with no doors. Enquanto isso, a Doctor Who Magazine apresentava Izzy Sinclair como Companion do 8° Doutor. O roteirista Alan Barnes, que escreveu Endgame, contou que a história de Izzy terminava com ela ganhando confiança o suficiente para aceitar sua sexualidade.

Com o tempo, vários outros personagens foram identificados como parte da comunidade. E claro, poderíamos continuar com contextos que não foram mostrados na televisão, mas a verdade é que a série clássica de Doctor Who sofreu com os problemas de sua época, e a falta de representatividade seria um problema a ser resolvido com o tempo.

Russell T Davies, um homem abertamente gay demonstrou então interesse em Doctor Who enquanto escrevia sua outra série de sucesso, Queer as Folk. Acontece que um dos personagens principais da série era um fã louco de Doctor Who e até hoje você encontra vídeos com referências desse outro sucesso do Russell. Em 2005 Doctor Who voltou a Tv pelas mãos dele e com o seu primeiro personagem não heterossexual sendo mostrado na pele do mais que capaz John Barrowman e seu inesquecível Capitão Jack Harkness. Daí pra frente ganhamos um Spin-off focado no público adulto e que mostrava aventuras do Capitão Jack em Torchwood. A série Torchwood talvez seja a que mais mostrou no universo de Doctor Who, as mais variadas orientações sexuais e demonstrava claramente a evolução das pessoas que assistiam em relação ao tema. Russel T Davies que na época era responsável pelo Spin-off, disse que sua intenção era expressar que a “sexualidade é fluida”.
Ilustração de Joel Hazel;
Fora da TV em 2011, pela Big Finish em The Cold Equation, o 1º Doutor ganhava o seu primeiro Companion gay. No áudio book que se passava em 1960, Oliver Harper se assumia para o Doutor e Steven e claro, os problemas da década foram abordados mostrando a vergonha e o medo que ele sentiu, mas que foram acalmados pelo Doutor que o assegurou que a perseguição sofrida na época era um “crime da sociedade” e não um crime cometido pelo Oliver.

Entrando na era de Steven Moffat como showrunner, outros personagens LGBTQI+ também foram introduzidos na série. Entre os que ganharam mais destaque temos a Madame Vastra e Jenny Flint, um casal de lésbicas, apresentadas em A Good Man Goes to War e que fizeram parte da série durante a era do 11º Doutor, ganhando mais destaque na era do 12ª Doutor, com direito aos próprios áudios e aventuras na Big Finish com The Paternoster Gang que mostra aventuras das duas com o Strax. Temos também a Companion Clara Oswald que até hoje gera muita discussão no fandom. Se nós fossemos trabalhar aqui apenas com frases e contextos podemos citar algumas, como por exemplo, em sua primeira aparição em Asylum of the Dalek, ela diz: "Rory, que nome adorável, eu tinha uma quedinha em um garoto com esse nome... não, na verdade era Nina." e não dá pra esquecer de Jane Austin que "beijava muito bem." Poderíamos nos basear apenas nisso para chegar à conclusão óbvia da bissexualidade da Companion, mas a novelização de The day of the Doctor trouxe a confirmação.

Não podemos esquecer de Class, Spin-Off de Doctor Who, roteirizado por Patrick Ness, onde o romance central foi protagonizado por um casal gay. 

Em 2017 fomos apresentados a primeira Companion de tempo integral na TARDIS abertamente lésbica, Bill Potts, criada por Steven Moffat. Sua preferência sexual é bem clara e podemos ver já no primeiro episódio da Companion. Na época do lançamento, Steven Moffat disse que não ia fazer da sexualidade da Companion um tema central e a atriz Pearl Mackie que deu vida a Bill Potts também disse que a sexualidade de sua personagem não era nem de perto a coisa mais interessante sobre ela. O que eles queriam mostrar com essas falas, é que ser diferente é normal. Mas claro que esse foi um grande momento para a série. 

Mesmo com a série tentando se atualizar e se adaptar aos tempos atuais, algumas coisas não foram feitas de forma correta, e uma delas foi a representatividade Transexual. Como em Torchwood no episódio, Greeks Bearing Gifts que muitos dos leitores consideraram uma história Transfóbia, e claro em A Town called mercy, onde o Doutor diz que o cavalo prefere ser chamado de Susan porque ele pode "escolher", que muitos consideraram uma piada desrespeitosa. Muito também se discute sobre a personagem Cassandra O'brien, que no episódio The End of The World diz que já foi um "menininho" e que foi citada como um dos primeiros exemplos de alguém que modificou demais seu corpo, o que levou a personagem de Rose Tyler a dizer que ela seria "menos que um humano". Se fosse levado em conta a fala de Cassandra, e a resposta de Rose, claramente seria um tratamento problemático. Entretanto não se sabe ao certo se a fala quer ou não dizer isso, e qual o seu real significado.
Ilustração de Luxris
Mas claro que até esses erros foram levados em conta e a série está procurando corrigi-los. Na nova coleção de áudios da Big Finish, poderemos acompanhar o 8° Doutor em uma nova aventura, com a primeira Companion Transgênero da história da série. Rebecca Root, que é uma mulher Trans, interpretará Tania Bell no novo áudio drama, "Stranded". Ela já participou de outros áudios antes, mas essa será a primeira vez que dará vida a uma Companion Transgênero.

Mudanças nem sempre são fáceis, mas se atualizar e abraçar o momento atual é sempre necessário. E ninguém entende de mudanças melhor que a Doutora/Doutor. Quando falamos desse personagem, ela/ele não se encaixa nas normativas da heterossexualidade. Ao longo das temporadas foram adicionados características e fatos na história que demonstram que o personagem se identifica mais com uma pansexualidade, mas que é com certeza um personagem Queer. Certas cenas do 9° Doutor, como a que ele diz que termos como Gay ou Hétero são coisas bobas, ou quando ele não vê problema nenhum em se despedir do Capitão Jack com um beijo na boca. Ou então a cena onde o 12° Doutor em uma conversa com Bill diz que os 'Senhores do tempo estão bilhões de anos luz além dessa obsessão que os humanos tem por gêneros' e na mesma conversa revela ter uma quedinha pelo Master que ele diz achar que era um homem na época, nos leva a imaginar que os dois eram homens, certo? ou só o Master era homem na época? ou ele era uma mulher? A verdade é que não faz diferença para ele/ela. E não deveria fazer mesmo. O que importa para esse personagem é o quão feliz ele se sente perto das pessoas, que elas sejam boas. Na forma que a conhecemos, a Doutora nunca é cruel e nunca é covarde e jamais teria qualquer tipo de preconceito. Muitos dos vilões da série, como os Daleks, viajam pela galáxia tentando erradicar tudo o que é diferente, os Cybermen querem atualizar as pessoas para serem exatamente como eles. Ele/ela é uma forasteira, que ama o mundo e não se encaixa em lugar nenhum, ele/ela é aquele que se levanta para defender os perseguidos, os oprimidos e é obviamente um modelo a ser seguido por jovens que se sentem diferentes.

Com o decorrer da série a representatividade e inclusão se tornaram assuntos cada vez mais palpáveis. Mais do que nunca é perceptível que Doctor Who é a série do gênero que mais trabalha para se manter atual. E é imprescindível que os fãs que assistem entendam a importância e a grandeza vistas nas manifestações de personagens cada vez mais diversos em Doctor Who. A inclusão e representatividade ainda precisam ser ensinadas e no fim Doctor Who ainda é mesma série educativa concebida em 1963.

Um artigo de: Mariana Gonçalves. 
Comentários
3 Comentários

3 comentários:

  1. Que post maravilhoso, muita gente devia ler isso antes de dizer que a doutora/doutor é hetero, parece que não assistem a mesma série que a gente, mas enfim, lindo post <3

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